Gostaria

Como eu gostaria de ser um homem simples
Viajar nas asas de um pássaro
Ser livre, ser eu, e ser humano.

Como eu gostaria de poder abandonar tudo,
Abandonar o que fui criado a ser,
Abandonar tudo que me pertence
E a tudo a que eu pentenço,

Como eu gostaria de simplesmente me abster
Abster da vida, da sociedade.
De todos nós e de tudo que nos persegue,
De tudo que nos força, de tudo o que nos submete.

Como eu gostaria de não me encontrar mais nessa condição
De homem desumano, de pau mandado,
Interesseiro e competidor.

Qual é o prazer de viver nesse mundo?
De lutar e se sacrificar por dinheiro,
De subir na vida através da queda de outros,
Do capital sobre coletivo.

As perguntas são infinitas
Os desejos são inúmeros
Mas quase todas sem respostas
E quase todos insatisfeitos.

Infinidade



Infinidade
"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana; e eu não tenho certeza sobre o universo."

Realidade

A realidade é uma bosta. E obviamente, ela nos persegue em nosso cotidiano. Tentamos sempre escapar através de abstrações e devagações, mas sempre somos destituidos do sonho e das fantasias. Sorte daquele que tem a coragem de se exilar, de fugir dessa insanidade. De não mais se forçar ao convívio, a aceitação. Sorte daquele que se põe a quebrar as algemas de ferro e ouro que tanto nos prende à essa infame realidade.
Vivemos constantemente perseguidos por fantasmas, aprisionados por um controle que sequer precisa de um corpo físico ou usar da força para nos conter. Nos restringem nosso lazer, nosso trabalho, nosso sexo, e tudo o mais que possamos desejar fazer. Onde jaz a estrada que poderia nos levar a qualquer lugar? Onde jaz aquela vontade de mudar?
Os ideais somem, na ausência e difamação de qualquer ideal. No modismo a adolescência se perde, lendo lixos literários e posando para fotos. A rebeldia virou birra, a fúria juvenil virou frescura. As gerações se confundem na ganância do acúmulo constante. E na desumanização, a espécie humana caminha fundo, para um abismo escuro e cruel.
Já disse Eduardo Marinho "gostaria de saber o que era não ter nada", e quem sabe, olhando para o nada consigamos de fato entender o valor de uma vida. Talvez até nos desvincular do poder que o capital assumiu em nossos bolsos, e o mais importante, que passemos a nos respeitar, a respeitar essa grande massa fedida que a civilização construiu, e que todos nós fazemos parte.
Aí então, até me atrevo a sonhar, consigamos perceber que assim como somos ativos no processo de desvalorização do homem, podemos passar a revertê-lo, e transformá-lo em construção de uma postura coletiva, em desenvolvimento humano, e de fato humano. De todos os homens.
Gostaria eu de continuar a sonhar, de elevar essas abstrações a uma possível objetividade. Mas as condições se diferem, jovens passam fome, morrem em filas de hospitais, idosos são destratados nas ruas, pessoas enlouquecem em seus trabalhos, submissos a seus inúteis patrões, e todos nós pensando no próprio bolso, na paz da "família" brasileira.
Realidade, ah, realidade. Uma bosta de uma realidade.

Porquê?

- Queridos, não precisam ficar tristes, você são muito especiais, todos vocês são especiais.
- Isso é a mesma coisa que dizer que ninguém é, fessora.
- Por que Cainho?
- Porque sim fessora.
- Porque sim não é resposta Cainho.
- É sim fessora.
- Não é não Cainho.
- É sim fessora, a senhora me fez uma pergunta, e eu respondi com "Porque sim".
- Mas não é uma resposta válida Cainho.
- Mas por que não fessora?
- Ah, porque é vaga, não demonstra nenhum complemento.
O resto da sala, torcendo o pescoço, tentando acompanhar para onde a conversa seguia.
- Mas fessora, quando a senhora pergunta se eu to presente eu falo sim e você aceita, porque agora não aceita mais? Se eu responder só sim na chamada vai estar errado fessora?
- Não Cainho, daí é outra situação.
- Mas porque fessora? São as mesmas palavras, só acrescentei o "porque".
- Sim, mas a pergunta mudou Cainho.
- I daí fessora?
- A nova pergunta que te fiz exigia um complemento Cainho.
- Mas, a complemento serve pra que fessora?
- Pra explicar o porquê você tinha falado aquilo.
- Mas eu disse aquilo porque eu achei que deveria ter falado fessora.
- Isso seria o complemento pra tua resposta Cainho.
Toda a classe olha interessada para a professora.
- Mas tudo é igual fessora, só falei mais, mas falei a mesma coisa.
Novamente, todos encaram a professora, que por sua vez olha de relance para o resto da classe, respirando e retomando o pensamento.
- Sim, mas falou de maneira mais clara, Cainho!
- Mas a fessora já não tinha entendido?
- Sim, mas os outros alunos poderiam não ter, Cainho!
Cainho, olhando em volta, todos os alunos em silêncio olhando para ele, atentos, em espera.
- Eu acho que eles entenderiam mais só com o "porque sim" do que com tudo isso que a gente falou fessora.
- Como assim Cainho?
- A senhora só complico tudo fessora, nem eu mais sei o que falei fessora.
- Mas Cainho, você precisa aprender a responder de forma correta.
- Fessora, eu estou aprendendo, mas agora está tudo confuso.
- Única coisa que você precisa aprender Cainho, é que certas perguntas precisam de uma resposta completa, para que as pessoas possam entender com clareza o que você esteja falando.
- Mas você usou bastante complemento nas tuas respostas fessora, e eu não entendi nada.
- Um dia você entenderá.
- Como você sabe fessora?
- Eu apenas sei.
- Mas por quê?
- Porque sim, Cainho, porque sim.
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