Que a morte nos separe

O céu repleto de estrelas reluzentes pode ser belo e acolhedor. Um dia até tivemos a ânsia de buscar a felicidade e de sorrir com as delicadezas da vida. O aroma agradável do cotidiano nos remetia a tempos futuros, onde tudo era puro e saudável. Planos formulados, e eles sempre davam certo, carícias distribuídas e toques apaixonados. A vida simplesmente sorria, e o sorriso em nossas faces a acompanhava.
Carregávamos nosso tempo com passatempos simples e as responsabilidades eram sempre levadas com certa facilidade. O mundo parecia belo, belo como as histórias infantis ou os contos bíblicos. O sonho de Éden, que, infelizmente, sempre se realizou apenas em mentes ocultadas pelo breu do céu noturno estrelado.
Mas as estrelas deixam de reluzir quando o sol as cobre com sua luz ofuscante, abrimos os olhos, doloridos e achatados. Tentamos em vão nos proteger das dores, mas nelas permanecemos. Dores angustiantes, um massacre de emoções negativas. Um desespero pra que chegue logo o costume, que seus olhos aceitem o incômodo e consigam se abrir, e de fato se abrem, enxergando mais do que conseguiam durante a luz das estrelas.
E eis que o horizonte se mostra em nossa frente, olhamos para longe, detectando vastos campos e o que mais ali houver. Com um pouco mais de atenção, as relações tornam-se visíveis, e vê-se um mundo caótico. Formigas caminham trombando-se e sentindo o cheiro pútrido da vivência humana. Casais de mãos dadas, que se enganam com palavras de amor insalubres e irreais.
Aqueles planos de outrora se desfacelam diante da visão diurna, o futuro se descontrói. E então, as janelas se fecham.

Carta ao Jose Serra

Caro José Serra

Se me permite citá-lo: "eu, eu, eu acho bom a reforma agrária".

De fato, essa tua frase aí seria uma beleza! Mas, rapaz, olha os argumentos que se seguem, você diz que o gov. Federal (coisa aí que um dia qualquer ficou claro pra ti) tem muita terra que foi desapropriada, talvez dos latifundiários fanfarrões que não contribuem muita coisa com o desenvolvimento social (seráá?). Mas só não distribui toda essa fartura de terra por não ter dinheiro pra prepará-la... Tá me achando com cara de trouxa? Posso até ser bobão, simplório, mas rapaz!!!!! Não tem dinheiro? Já fiquei sabendo de assentamentos que sem um puto e sem um prato de comida na mesa prepararam um loteamento pra começar a plantar mandioca e cana, e foram muito bem sucedidos, só tiveram um obstáculo, tiros das armas carregadas daqueles homens fardados que você enviou. Como raios, um governo federal, não teria esse dinheiro? Era só propaganda né? Gracinha na televisão. Porque dinheiro pra investir em capital privado o senhorzinho sempre teve né? Pra subsidiar as condições pro crescimento de empresas privadas de São Paulo nunca vi faltar dinheiro, sim sim, você era gov. Estadual, mas fala que não tem dinheiro pra educação mas tem pra bancar teus irmão de classe.
E continua, reforma agrícola ao invés de agrária? Pois é, vejamos, pra que dar cesta básica pra quem não tem o quê comer? Pra que dar terra pra quem não tem onde viver? Nããão, vamos dar é condições para os caras que já tem terra e já estão plantando (latifundiário nadando em dinheiro), plantar mais ainda, ganhar mais dinheiro ainda, pra que dar terra lá pro sujeito do MST, que por sinal tá lá só como pretexto pra fazer política, né? Pois é bastante óbvio que quem tá com fome, invade terra sem uso pra plantar porque quer fazer política. Coisa simples, raciocínio lógico... eu jamais conseguiria pensar de outra forma.
E é claro, produtividade, tinha que citar isso, a reforma agrária na tua concepção é legal, mas tem que produzir, se não produzir o suficiente tem mesmo é que ficar sem terra!!! Porque não é justo, além de dar a terra (de graça) pro sujeito, ainda tem que ficar pagando cesta básica? Poxa vida, verdade... é muito disperdício de dinheiro público bancar condições necessárias para uma família começar a desenvolver tua plantaçãozinha. E olha que, mesmo que dê as condições, dificilmente ele vai plantar pra exportação, de onde vamos tirar lucro disso, né José Serra? Porque, afinal das contas, é o que te importa, lucro, e não pro Estado, muito menos pra ser repassado pra políticas públicas, é pra por no teu bolso e no bolso dos teus companheiros, a "massa cheirosa". e olha lá, porque aposto que até os cheirosinhos não tem direito aos teus benefícios. É só mesmo gente grande né José Serra? É só pra quem tem conta cheia.

Estou com medo, e confesso sem vergonha, estou com muito medo! É triste ver o Brasil nessa situação. E porra Brasil, a gente tem muito mais pra oferecer! Os políticos surgem do povo, e nós temos que ter a consciência de recusar aqueles que para o povo não querem retornar! Alguém que subiu JAMAIS deve subir usando cabeças como degraus, e MUITO MENOS cuspir nessas cabeças quando alcançou o ninho!
Nós, o povo, fedido ou cheiroso, devemos nos por como povo, como massa, não a de manobra, mas como coletivo. A categoria dos desprezados, aqueles que não mais querem ser manipulados e mal tratados. Façamos valer nossos direitos, derrubemos aqueles que já estão ou querem estar no planalto a tempo demais! Nós merecemos mais!

Me recuso a votar em ti José Serra, teu falso sorriso não me conquista e não engana. Não te quero no planalto, na câmara ou lugar algum, sequer no meu jardim. Teu bolso é sujo, sujo com notas avermelhadas das mortes por pobreza, espancamentos pela tua pau mandada força policial ou qualquer um dos outros meios que você arruma pra calar a oposição. Não estamos procurando pretexto pra fazer política, estamos procurando a capacidade de conseguir viver, com dignidade e respeito.

Termino essa carta, escrita por mim, não com muito carinho, a ti José Serra, atual candidato a Presidência da República. E espero, do fundo do coração, que você não ganhe.

Atenciosamente,

André Padoveze.

Texto baseado em uma entrevista de Jose Serra, para lê-la Clique Aqui

Desmerece títulos

Nos meus ínfimos e curtos anos de observação do mundo em que estamos posso contar maiores frustrações do que satisfações. O número de desgraças e o nível de desumanização que atingimos chega até a assustar aquele que para pra pensar.
A gente vê pessoas tratando "negro" como "preto", como se a diferença da cor da pele tivesse alguma relevância no que aquele homem é ou não é, e como se a troca das palavras fosse pejorativa por si só. Mas tanto faz ser chamado de negro ou de preto, afinal das contas, é só uma denominação pra algo que sequer deveria ser significativo. Tenhamos orgulho de sermos o que somos, e respeitemos o que os outros se tornaram, todos fazemos parte de um mundo tão lixo quanto as relações que criamos dentro dele.
O gay não é só homossexual, é um "viado" indigno de respeito só porque gosta do buraco "errado". Agora também não podemos sequer ter preferências, só porque elas envolvem sexo, como se sexo fosse grande coisa.
E o pobre, fruto da desigualdade e aquele que nada possui, é jogado às margens da sociedade, impróprio para viver decentemente. No mundo do dinheiro, quem não o tem, nada tem. E pra piorar ainda mais, quem nada tem vale menos do que um mísero papel impresso, que disseram por aí que tem valor e que é importante.
A realidade é mais ou menos assim, me reservando o direito ao simplismo, se for preto ou viado é todo errado, se for pobre a gente nem conta, se não for nem um e nem outro a gente chama de louco, mas se for branco, rico e não fizer muito barulho é digno de justiça, respeito civil, casa, roupa lavada e um espaçozinho na novela das nove.
Me parece que tudo isso tá muito errado... não temos o direito de ser, sequer de existir. Nos jogam alguns padrões, dizem ser aceitáveis e, acima de tudo, naturais, e olha lá se não concordarmos. Daí paro pra pensar... a diferença está nos olhos e na cabeça de quem a produziu e de quem a aceitou, ela foi produzida, mas podemos deixar de aceitá-la.
Nos encontramos agora em uma sociedade que prefere criar exploradores e manter os explorados sempre no controle, quietinhos, e a gente se desenvolve dia-a-dia criando e aperfeiçoando as técnicas para facilitar todo esse processo.
E olha que ainda nem comecei a falar das relações de trabalho, a gente é transformado em um corpinho infame, braços fortes pra carregar saco de batata, cabeça grande pra ficar fazendo conta, testa inxada pra fazer terapias, mas todos submissos a uma só condição, trabalhadores, obrigados a vender nossos corpos. Somos escravos de um sistema já errado, que pressupõe divisão do trabalho e a acumulação. E pra um ter a mais, alguém tem que ter a menos. Já começa aí a decadência.
E vai sucumbindo, segura aí que o precipício é longo. O produtor produz, mas não possui. O pedreiro que construiu aquele condomínio de luxo não vai poder nem usar o banheiro da guarita (imagine o de uma das casas) depois que terminar o trabalho. Coitadas são as bundas lisas e cheirosas dos burgueses que não podem dividir o mesmo assento com aquele que tirou essa casa do papel, pior, sequer podem dividir o mesmo espaço, pois os delicados olhos não conseguem ver sujeira do pó de concreto que eles acumularam enquanto construiam tudo aquilo, e sequer seus belos narizes produzidos artificialmente podem com o cheiro de suor das 10 horas de trabalhos diários debaixo de um sol infernoso. E afirmo, e se não perceberam, leiam de novo, estou carregado de ironias.
Mas que mundo é esse? Cruel e insano, torna a sobrevivência em um sacrifício, e faço questão de salientar a contradição dessa frase. Afinal, nas mãos de quem estão nossas vidas, e de quem queremos que esteja? Eu, pessoalmente, consigo pensar em quais eu não gostaria que a minha estivesse.
Para os descontentes de plantão, sair disso tudo é difícil, morrer não é solução, então caberia resistir em aceitar e buscar nas questões simples e práticas do cotidiano a superação pra pequenas parcelas de toda essa baboseira em que estamos. Além de, também, nos caber o sonho de que um dia todas essas pequenas atitudes juntem-se a outras tão pequenas quanto e tornem-se uma só, grande. Uma revolucionária mudança.

Vólupias

A música roda, ensurdecendo os ouvidos. O álcool no sangue torna mentes insanas em maresias descontroladas, as ondas passam, chocam-se e espumam-se diante de pedras rijas e frias. Mas a dança continua, cada vez mais movimentada e encantadora.
Enquanto o tempo passa, o pudor se esvai. Em conjunto com fumaça, suor e sorrisos, o corpo se solta, as mãos tomam liberdades. O corpo liso e sem pelos se atiça diante de palmas ásperas, a boca abre-se liberando suavemente o ar dos pulmões, e com ele um leve sussurro emitido do fundo da garganta.
O pescoço se abre, e se mostra receptivo, atraindo lábios molhados e línguas ouriçadas. Novamente a pele lisa se atiça, o sussurro surge mais elevado, e a boca, outrora aberta, agora tem os dentes fincados na sua carne.
E a dança continua, ainda mais intensa, carnal. Preocupações se escondem por trás de arbustos, e o casal, com os olhos fechados, enxergam-se envoltos por sombras irrelevantes. O tato e o paladar os guiam. A cada aperto, a cada abraço, a cada batida da música e a cada giro da dança a volúpia carnal se intensifica.
Todos os músculos dos corpos começam a dilatar, e o sangue a ferver. As estranhas esquentam e aprimoram todas as sensações, o suor escorre, o gosto salgado do prazer mistura-se com o doce do sexo, e os dançarinos encaixados tomam-se um ao outro, e o casal, não mais só casal, dominam-se, de corpo e alma, ignorando os ao redores, fingindo que o mundo a eles pertence, até que o fim encontre-se em um turbilhão de emoções e sensações. Contrações musculares, suor, gozo e paixão...
A maresia retorna, tranquila e serena, e a dança termina num abraço e num suspiro final. E de fato, por hora, o mundo a só eles pertence.

Rachas

No âmago as coisas incomodam e repercutem como sagazes gravetos incandescentes, na face a dor é expressa e se porta como adversário da conquista. Caminhamos cantando, berrando ou mesmo silenciosos, mas a caminhada perdura, o tempo passa como o chão a cada passada.
Vivemos para sorrir, mesmo quando não contentes. Vivemos para viver, mesmo quando não querendo. A mentira é larga, expessa e aparentemente indestrutível, mas as carapaças mais rijas um dia se quebrarão, e sua rachadura se mostrará a todos como a possibilidade e a esperança de uma vitória.

Saudações aos caídos

Cadê o povo guerreiro e batalhador? Onde jaz a alma coletiva e imbatível que outrora existiu? Se num dia houve o combate e a vitória, noutro há a acomodação e a derrota. A resistência se findara, tudo o que escuto agora são frases soltas e oratória perdida.
Os guerreiros e guerrilheiros se cansaram, ou ocultaram-se como o sol poente por detrás da montanha? Inimigos ainda existem, a necessidade de vós ainda persiste, a luta pelo futuro se engrandece a nossa frente, e a derrota se aproxima silenciosa e agressiva.
Cadê o povo guerreiro e batalhador? Não nos deixeis sucumbir em combate, levantemos a cada golpe que nos é dado, a resistência deve persistir, o cansaço superado, e a luta reerguida.

André Padoveze
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